LINHAS COINCIDENTES

Por João Anzanello Carrascoza

 

Vivemos, o tempo todo, sob o jugo das coincidências – e nem percebemos. O amor, quando recíproco, é exemplo de sentimento coincidente entre duas pessoas. O ódio, também. Se eu, agora, escrevo estas palavras, os seus olhos, ao lê-las, seja em que momento for, as encontrará idênticas, coincidindo com a ordem que eu as coloquei. Assim, o que está escrito nas páginas – e nas estrelas – coincide com a leitura de seus signos, embora possa ser outro o seu significado.

Coincidências pouco expressivas, no entanto, não nos comovem. São frases opacas no texto da nossa existência. Sonhamos com frases iluminadas. E, se uma delas se acende, de súbito, à nossa frente, eis que nos surpreendem, nos espantam, nos despalavram.

Toda coincidência pressupõe a junção de dois pontos. Um vai à procura do outro sem o mapa do caminho – por isso, leva tempo, às vezes muito tempo, para que o abraço se confirme.

Assim aconteceu com este livro: comecei a esboçá-lo num período em que passei no Château de Lavigny, uma residência de escritores na Suíça. Lá, lembrei-me de histórias de coincidências que havia vivido, escrevi algumas, planejei desenvolver outras no futuro. Mas, em meio a urgências, deixei o projeto de lado.

Dois anos depois, na Feira do Livro de Frankfurt, o escritor Ronaldo Correia de Brito me apresentou a seu editor, na Alfaguara, Marcelo Ferroni. Conversamos durante um tempo, e, quando nos despedimos, pensei: um dia, eu gostaria de ser publicado por esse editor!

Ano passado, encaminhei-lhe uma coletânea de contos inéditos. Mas não era ainda a hora de um ponto corresponder ao outro.

Então, enviei-lhe o Diário das coincidências, que eu havia finalizado. E o encaixe se deu, imediatamente, como se ele estivesse há muito à espera desse original.

Ferroni foi quem teve a ideia de expandir as histórias do “diário” e trazer a participação do público para as páginas do livro. Bonito, bonito e raro, quando o plano de um escritor coincide com o de um editor, abrindo espaço para acolher um terceiro elemento: você e sua história.