A SELEÇÃO DAS COINCIDÊNCIAS

Por João Anzanello Carrascoza

 

Desde que iniciamos este projeto colaborativo, convidando você a participar do Diário das coincidências enviando suas histórias, novas coincidências ocorreram. Talvez porque uma atrai outra, que atrai outra e outra, e, assim, vai se criando uma corrente, cujos elos, apesar de distintos, são feitos do mesmo sentimento: o espanto ante o inexplicável.

As histórias de coincidências, encaminhadas pelo site, formaram um pequeno e exuberante rio, no qual pude me banhar em busca de sua terceira margem. E, enquanto entrava e saía dessas águas, algumas histórias saltavam como peixes, cintilando não apenas para os meus olhos, mas, sobretudo, para o meu coração.

Dessa forma, foram se separando das demais narrativas e se ajeitando nas páginas futuras do Diário das coincidências. Não precisei, portanto, fazer uma seleção – certas histórias logo ocuparam os vazios existentes na obra, espraiando-se com suavidade por sua atmosfera.

Surpreendente foi descobrir, depois, a sua autoria. Algumas narrativas são de pessoas que conheci ao longo da vida, e com quem havia perdido o contato há anos. Outras vieram de gente desconhecida, mas coincidiam tanto com a substância de minhas vivências, que foi como se tivesse apenas me esquecido delas. Seus autores realizaram, para minha alegria, o milagre de relembrá-las.

Mais uma vez agradeço a todos que generosamente contribuíram com este projeto, partilhando comigo as suas histórias. Em especial, àqueles cujas coincidências vão fazer parte do diário: Amanda Alves de Souza, Chris Ritchie, Elaine Resende, Ilze Bromatte Duarte, Márcia Maria de Sillos Serafim, Sara Regina Albuquerque França e Vera da Cunha Pasqualin.

Em breve, mais notícias sobre o lançamento do livro, quando, então, minha escrita presente haverá de coincidir com sua próxima leitura.  

GRATIDÃO COINCIDE COM GENEROSIDADE

Por João Anzanello Carrascoza

 

Para ocorrer uma coincidência é preciso que dois planos distintos se unam, dois eixos se encaixem, duas palavras se aglutinem. Não por acaso, a regra na vida costuma ser o desencontro. O encontro – a coincidência – é exceção.

Por isso, gostaria de agradecer às pessoas cuja sensibilidade, coincidindo com a minha, motivaram-se a enviar suas histórias de coincidência para este site, cientes de que, frutos ou não da escrita misteriosa do universo, foram transformadoras em sua existência.

Recebemos numerosos relatos de todos os cantos do Brasil, e também de fora do país, enviados por pessoas de diferentes gerações que atenderam ao nosso convite.

Dediquei-me a uma primeira leitura das contribuições e – antes de relê-las cuidadosamente para escolher, junto aos editores da Alfaguara, as narrativas mais tocantes e incluí-las no livro Diário das coincidências – posso assegurar que temos uma amostra surpreendente.

Muitas histórias, permeadas de graça, trazem a face das coincidências que nos fazem sorrir. Já outras tantas nos doem a cada linha, comprovando que certos eventos se fundem, tristemente, com perfeição.

Coincidências são assim: ligam alegrias, enlaçam abismos. E, por vezes, colam sentimentos, como a minha gratidão e a sua generosidade (por ter nos enviado uma história). 

LINHAS COINCIDENTES

Por João Anzanello Carrascoza

 

Vivemos, o tempo todo, sob o jugo das coincidências – e nem percebemos. O amor, quando recíproco, é exemplo de sentimento coincidente entre duas pessoas. O ódio, também. Se eu, agora, escrevo estas palavras, os seus olhos, ao lê-las, seja em que momento for, as encontrará idênticas, coincidindo com a ordem que eu as coloquei. Assim, o que está escrito nas páginas – e nas estrelas – coincide com a leitura de seus signos, embora possa ser outro o seu significado.

Coincidências pouco expressivas, no entanto, não nos comovem. São frases opacas no texto da nossa existência. Sonhamos com frases iluminadas. E, se uma delas se acende, de súbito, à nossa frente, eis que nos surpreendem, nos espantam, nos despalavram.

Toda coincidência pressupõe a junção de dois pontos. Um vai à procura do outro sem o mapa do caminho – por isso, leva tempo, às vezes muito tempo, para que o abraço se confirme.

Assim aconteceu com este livro: comecei a esboçá-lo num período em que passei no Château de Lavigny, uma residência de escritores na Suíça. Lá, lembrei-me de histórias de coincidências que havia vivido, escrevi algumas, planejei desenvolver outras no futuro. Mas, em meio a urgências, deixei o projeto de lado.

Dois anos depois, na Feira do Livro de Frankfurt, o escritor Ronaldo Correia de Brito me apresentou a seu editor, na Alfaguara, Marcelo Ferroni. Conversamos durante um tempo, e, quando nos despedimos, pensei: um dia, eu gostaria de ser publicado por esse editor!

Ano passado, encaminhei-lhe uma coletânea de contos inéditos. Mas não era ainda a hora de um ponto corresponder ao outro.

Então, enviei-lhe o Diário das coincidências, que eu havia finalizado. E o encaixe se deu, imediatamente, como se ele estivesse há muito à espera desse original.

Ferroni foi quem teve a ideia de expandir as histórias do “diário” e trazer a participação do público para as páginas do livro. Bonito, bonito e raro, quando o plano de um escritor coincide com o de um editor, abrindo espaço para acolher um terceiro elemento: você e sua história.

A MULTIPLICAÇÃO DE PÃES, PEIXES E COINCIDÊNCIAS

Por João Anzanello Carrascoza

Desde que lançamos o site Diário das coincidências, há dez dias, as histórias de coincidências não param de chegar. Multiplicam-se, como no milagre bíblico dos pães e dos peixes.

O cesto no qual acolhemos as primeiras contribuições começa a se encher. E um fato expressivo, ainda que não imprevisível, sucedeu: muitas histórias repetem os mesmos episódios (com alguma variável narrativa), descrevem situações similares, carregam tramas ou desfechos que coincidem.

A lógica do universo, ou a sua escrita torta, ratifica certas ocorrências nas linhas e entrelinhas dos relatos. Mas também há surpresas que fraturam tal padrão e nos convencem da engenhosidade do destino — ou de seu reverso, o acaso.

Combinei com a Luara França, da Alfaguara, que receberia as contribuições sem rastros de autoria. Ao ler as histórias enviadas, minha intenção  é ser flagrado, como na vida, pelo inesperado, independentemente das mãos que o trazem, sejam de amigos ou de desconhecidos.

Anônima é a vocação da vida para encantar, a qualquer hora. E se há coincidências que se estruturam de forma idêntica (até nos detalhes), descobri nesse cesto outras que, num movimento mágico, reinventaram a alegria, o fascínio e o milagre da literatura.

E ASSIM COMEÇOU

 por João Anzanello Carrascoza

Desde criança, as coincidências me inquietam. Ora pelo susto que me causavam, quando, de repente, acendiam-se como holofotes diante de meus olhos; ora pelo encanto, sutil, de revelarem um pequeno lume entre meus dedos.

Talvez porque elas sejam tecidas por longo tempo – e só nos aparecem quando totalmente prontas –, demorei para escrever sobre as mais expressivas, que, nos últimos anos, acumularam-se em meu caminho.

Chegou a hora: meu desejo de recontá-las coincide com a minha leitura – hoje mais atenta – do universo.  

Coincidências são como véus transparentes que, de súbito, tornam-se visíveis. São, portanto, uma espécie de texto. Fios de fatos que se alinham, tecendo surpresas.

Todo texto é um acontecimento: por meio dele, quem enuncia produz efeitos de sentido, visando marcar uma posição; e quem o interpreta, atribui-lhe um significado, também de acordo com sua posição.

Então, quem enuncia, em nossa vida, tantas coincidências? O destino ou o acaso? E quais significados damos a elas? 

Assim, comecei a escrever as primeiras histórias deste “diário”. E, claro, nessa escrita misteriosa, cabe você e a sua maior coincidência.